O Trabalho
dos Anciãos
Vs. 2-3 — Pedro menciona três coisas que os anciãos[1]
devem fazer:
PASTOREAR O
REBANHO (v. 2a) – A primeira coisa era “Apascentar o rebanho de Deus”. Ao
exortar os anciãos (Pedro se inclui como um deles), é claro que ele nunca
esqueceu o que o Senhor lhe disse: “Apascenta
as Minhas ovelhas” (Jo 21:16). Sabendo que havia uma grande necessidade
desse trabalho entre os santos, ele exortou esses anciãos a se empenharem nesse
trabalho de amor. É triste dizer que isso não foi seguido na história da
Igreja. A ruína do testemunho Cristão que existe hoje pode ser atribuída em
grande parte aos anciãos que se desviaram e não fizeram o seu trabalho com
fidelidade (At 20:29-30; 3 Jo 9-10; Ap 2-3 – “o anjo”). Podemos afirmar que a necessidade de pastorear o povo de
Deus é hoje maior do que nunca. Que o Senhor levante muitos desses pastores.
A versão King James esta
frase: “Alimente o rebanho de Deus”,
mas “alimentar” é muito restritivo.
Apascentar é mais do que alimentar – dando aos santos alimento espiritual
(ensinando). Isso inclui alimentá-los, mas também envolve guiá-los,
aconselhá-los, visitá-los e ajudá-los em seus problemas e necessidades
temporais. Tendo adquirido experiência no caminho da fé, os anciãos devem compartilhar
sua sabedoria aos santos com o objetivo de ajudá-los a seguir juntos
espiritualmente, e, em paz. Este trabalho requer discernir “o estado” do rebanho, de modo a ministrar adequadamente às suas
necessidades (Pv 27:23).
EXERCER
SUPERVISÃO PARA O BEM DO REBANHO (v. 2b) –
A segunda coisa é “tendo cuidado dele”. Isso se refere principalmente às responsabilidades
administrativas em uma assembleia local. Apascentar o rebanho pode ser feito em
qualquer lugar onde os santos são encontrados, mas a supervisão administrativa
é puramente um trabalho local. Isto é, deve ser realizado na assembleia na
localidade onde os anciãos vivem. Eles devem assumir a liderança em assuntos
espirituais envolvendo recepção, disciplina, etc.
Este é um trabalho que os anciãos
devem fazer “voluntariamente”, não
por “força”. Portanto, não é para
ser realizado no sentido de uma obrigação, mas de algo feito para o Senhor, e
motivado pelo amor e compaixão pelos santos. Também não deve ser feito por “torpe ganância” financeira, embora
eles possam às vezes receber ajuda monetária da assembleia (1 Tm 5:17-18).
Assim, eles deviam alimentar o
rebanho, não tosquiá-lo!
SER EXEMPLO
PARA O REBANHO (v. 3) – A terceira coisa é que os anciãos devem servir “de
exemplo [modelo] para o rebanho” em caráter moral. Os santos precisam aprender a
verdade, o que Deus faz por meio de mestres dotados
(1 Co 12:28; Ef 4:11), e se necessário, por meio dos anciãos
(Tt 1:9). Mas aos santos também é preciso mostrar-lhes a verdade na prática. Os
anciãos, portanto, devem assumir a liderança e demonstrar a conduta Cristã
adequada perante os santos e, assim, dar-lhes um exemplo a seguir. O apóstolo
Paulo disse: “jamais deixando de
vos anunciar... Tenho-vos mostrado...” (At 20:20,
35).
Pedro adverte os anciãos do
perigo de “dominar” o rebanho e
tratá-lo como sua “herança”. A nota
de rodapé da Tradução J. N. Darby diz: “Vendo os santos como algo que pertence
a você… o rebanho não era para ser tratado como 'possessão’ dos anciãos”. Os
anciãos devem sempre
ter em mente que é “o rebanho de Deus”
que eles estão pastoreando. O rebanho é de Deus; não deles. Enquanto os
clérigos (os chamados pastores e ministros da Cristandade) frequentemente falam
de uma congregação de Cristãos como “seu”
rebanho, a Escritura não diz nada sobre um sub-pastor tendo tal posição. Não há nenhuma sugestão aqui, nem em
qualquer outro lugar na Escritura, de uma ordem clerical governando
arbitrariamente sobre os leigos. O ponto simples de Pedro aqui é que os anciãos não devem governar os
santos de maneira dominadora. Os anciãos devem ser respeitados, mas não devem
exigir esse respeito; eles devem ganhá-lo.
Na Escritura, quando o
trabalho dos anciãos está em vista, eles são sempre mencionados no plural (At
20:28; 1 Tm 5:17-18, etc.). (Quando suas qualificações morais estão em vista,
elas estão no singular – 1 Tm 3:1-8; Tt 1:6-9, etc.) Isso ocorre porque quando
há vários homens envolvidos no trabalho em uma localidade, eles podem ser
verificadores e ponderadores uns dos outros. Assim, há uma maior imunidade
contra um homem que se levanta e leva os santos atrás de si na direção errada.
Um único homem presidindo sobre os santos não é bíblico e é potencialmente
perigoso. Como mencionado, ele poderia se deixar levar por sua importância
própria e causar danos ao rebanho. Este foi o caso de Diótrefes (3 Jo 9-10). Além de ser cheio de compaixão e sacrifício
próprio – como visto no bom Pastor (Mt 9:36; Mc 6:34; At 20:35) – um pastor
deve ser humilde (v. 5).
V. 4 – Para o encorajamento
de todos que realizam este trabalho, que às vezes pode ser um trabalho ingrato,
Pedro lembra-lhes que o desempenho fiel deste serviço terá a sua feliz
recompensa. Ele diz: “E,
quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória”. O
pastorear, feito à maneira de Deus, não levará ninguém ao destaque hoje em dia
– ele é em geral um trabalho silencioso feito entre os santos em um nível
pessoal. Mas a sua recompensa num dia vindouro certamente será algo público. A
afirmação de Pedro aqui parece estar dizendo que as recompensas (coroas) serão
recebidas pelos santos na Aparição de Cristo, mas a Escritura ensina claramente
que as recompensas pelo serviço fiel serão dadas no tribunal de Cristo, que
ocorrerá após os santos serem levados para o céu no Arrebatamento (Mt 25:19-23;
Lc 19:15-19; 1 Co 4:5; Ap 4:4 – os santos têm suas “coroas” antes do início
das aflições da tribulação). Pedro certamente não estaria contradizendo isso;
portanto, ele deve estar se referindo à manifestação pública de nossas
recompensas em “glória”, que ocorre
na Aparição de Cristo e durante Seu reinado no reino milenar, naquilo que é
chamado de “o dia de Cristo” (Fp
1:6, 10; 2:16, etc.).
[1] N. do T.: O Novo Testamento usa três
palavras gregas para identificar a pessoa que faz essa obra de cuidado: ancião (presbuteroi), bispo (episkopoi) e pastores ou guias (hegoumenos). Não são três posições
diferentes na assembleia, mas sim três aspectos de um mesmo trabalho que esses
homens fazem.