A SENDA NO DESERTO,
ONDE FÉ É TESTADA (vs. 6-8)
Tendo falado de
nossa herança no céu, Pedro continua a falar do nossa senda por este mundo que
leva ao nosso destino celestial. Ele diz: “Em que vós grandemente vos
alegrais, ainda que agora importa, sendo necessário, que estejais por um pouco
contristados com várias tentações, para que a prova da vossa fé, muito mais
preciosa do que o ouro que perece e é provado pelo fogo, se ache em louvor, e
honra, e glória na revelação [Aparição] de Jesus Cristo”. Vemos desta
declaração que o caminho do Cristão para o céu é atravessando provações e
aflições. É onde nossa fé é verificada e fortalecida por meio das adversidades
que encontramos na vida. Essas coisas são necessárias ao desenvolvimento de
nosso caráter Cristão. Nosso caminho é semelhante, em princípio, à jornada de
Israel pelo deserto. Eles passaram por um “deserto, e num ermo solitário cheio de
uivos” para
alcançar sua herança prometida em Canaã (Dt 32:10) e o Cristão também está
fazendo uma jornada espiritual por este mundo para sua herança celestial. O
propósito dessa experiência tanto para Israel quanto para a Igreja é
ensinar-nos a andar com Deus (Dt 8:2-3; 1 Ts 2:12, 4:1). As duas grandes lições
do deserto são:
- Aprender sobre nossa própria
insuficiência e, assim, não confiar
em nós mesmos.
- Aprender sobre a total suficiência do Senhor, e nos lançarmos
sobre Ele em expressada dependência.
Essas coisas levam uma vida inteira para
serem aprendidas. Para esses santos judeus que agora estavam em terreno
Cristão, esse era um novo tipo de experiência no deserto.
Em vista de alcançar sua perspectiva celestial,
Pedro diz: “Em que vós grandemente vos
alegrais”. Este é o estado normal dos Cristãos (Fp 3:1, 4:4; 1 Ts 5:16).
Mas visto que todos os que professam fé em Cristo devem ser provados, o Senhor
permitiu que esses queridos santos fossem “contristados
com várias tentações”. Isso mostra que, enquanto os
Cristãos são mantidos guardados pelo poder de Deus, eles não estão sem
provações no caminho da fé. O problema com esses crentes era que eles não
entendiam porque tinham tais problemas e precisavam de instrução e
encorajamento quanto aos caminhos de Deus para com o Seu povo. Assim, Pedro
assegurou-lhes que quando uma provação entra na vida de um Cristão, ela é
necessária. Existe um “sendo necessário”, pois Deus nunca permite que nada toque seus filhos sem uma
razão. Uma vez que o Seu caminho é perfeito (Sl 18:30), podemos ter certeza de
que Ele não comete erros no que permite em nossas vidas.
A provação específica que
esses queridos crentes estavam enfrentando era a perseguição de seus irmãos
incrédulos e dos gentios incrédulos. Eles precisavam ter certeza de que o que
estavam passando não era por conta de desobediência por deixarem o judaísmo (do
que eles estavam sendo acusados), mas por causa de sua obediência à fé Cristã.
Assim, a “provação” (ARA) de sua “fé” não foi porque estavam
desagradando a Deus. Muito pelo contrário, foi por causa de sua posição fiel
por Cristo, e isso, é claro, foi algo com que Deus Se agradou. Na verdade, esse
tipo de provação é normal para o Cristianismo. É inevitável porque o mundo
odeia a Cristo e, ao nos identificarmos com Ele publicamente, somos levados a
sentir o ódio do mundo (Jo 15:18-20).
Pedro lhes diz que a
provação que estavam experimentando pelo nome do Senhor foi “muito
mais preciosa do que o ouro que perece”. Deus valorizou muito isso porque um testemunho estava sendo
prestado para Cristo neste mundo, e por meio do seu sofrimento algo estava
sendo formado neles, que seria usado para a promoção da glória de Cristo em Sua
Aparição. Naquele dia, será encontrado pelo Senhor “louvor,
e honra, e glória”. Deus usará os santos para refletir a glória de Cristo no dia de
Sua manifestação pública e em Seu reino (2 Ts 1:10; Ap 21:11). Eles não serão
objeto de louvor, honra e glória; “todo
o olho” estará em Cristo – Ele será o centro das atenções e receberá todo o
louvor (Ap 1:7). F. B. Hole disse: “Muitos confessos corajosos, sofrendo ardentes
provas – talvez até a morte – podem ter sido tentados a pensar que a sua luz
estava sendo extinta e que tudo estava perdido. O apóstolo diz-lhes que, pelo
contrário, tudo seria descoberto naquele dia. Cristo sendo revelado em Sua
glória, tudo para Seu louvor e honra virá para a luz e será manifestado” (Epistles, vol. 3, pág. 100).
Lembremo-nos, então, de que
toda prova pela qual passamos é designada por Deus e extremamente preciosa para
o Seu coração. O Senhor passa por ela conosco em divina compaixão e sente nossa
aflição (Is 63:9). Saber isso deve ter sido um conforto para esses santos
sofredores, e também deveria ser um consolo para nós quando formos chamados a
passar por ardentes provas de fogo desse tipo.
V. 8 – Pedro continua
falando de uma segunda grande coisa
que a provação produz nos santos – o Senhor Se torna mais precioso para nossos
corações. Ele diz: “Ao qual, não o havendo visto, amais”. Quando
passamos por uma provação, embora não possamos ver o Senhor, Ele Se aproxima e
nos faz conhecer a Sua presença de uma maneira muito real (Is 43:2). Isso é
extremamente precioso e reconfortante para nós e, como resultado, nosso amor e
afeição por Ele se aprofundam. Portanto, essas experiências, embora dolorosas,
são necessárias para o aumento de nossa afeição pelo Senhor.
Pedro acrescenta uma terceira coisa que resulta do fato de os
santos passarem por provações com o Senhor – eles experimentam um gozo inexplicável
que dá um testemunho brilhante e glorioso para todos em redor. Ele diz: “a
quem, sem o terdes visto, amais; no qual, sem agora o verdes, mas crendo,
exultais com gozo indizível e cheio de glória” (v. 8 – TB). Assim, há um gozo que o crente experimenta no tempo
da provação (se ele a atravessar em comunhão com o Senhor) na qual certa “glória” irradia dele (1 Pd 4:14). É
algo que o talvez o crente nem tenha consciência no momento, mas isso, no
entanto, prestará um poderoso testemunho àqueles que veem o crente sofrendo
dessa maneira. Isso mostra que o gozo Cristão não depende das circunstâncias
terrenas.
Em resumo, Pedro nos deu três efeitos positivos das provações
quando são recebidas de Deus, com um espírito correto:
- Elas trarão “louvor,
e honra, e glória” ao Senhor no dia de Sua manifestação pública (v. 7).
- Elas aprofundam o afeto do
santo (“amor”) para com o Senhor, e
isso se traduz em um relacionamento mais íntimo com Ele (v. 8a).
- Elas produzem “gozo
inefável” nos
santos, o que resulta em um testemunho de manifestada “glória” para todos em redor (v. 8b).