A SALVAÇÃO
DA ALMA (vs. 9-11)
Pedro segue adiante para
falar de outra bênção particular que os Cristãos têm que os santos nos tempos
do Velho Testamento não tinham – a salvação de nossas almas. Ele diz: “Alcançando
o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas. Desta salvação inquiririam e
indagaram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que para vós era
destinada, indagando qual o tempo ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo
que estava neles indicava, ao predizer os sofrimentos que a Cristo haviam de
vir, e a glória [as
glórias – TB] que se lhes havia de
seguir”. O
“fim” de que Pedro fala aqui é o fim
imediato do que a “fé” deles alcançou, ao crerem no
Senhor Jesus Cristo – a saber, a “salvação”
de suas “almas”. Assim, enquanto
esperamos pela nossa salvação completa na vinda do Senhor, quando seremos
libertos dos efeitos do pecado ao sermos glorificados (v. 5), os crentes, no
presente, têm a salvação de suas almas (v. 9).
A salvação da alma é uma
bênção Cristã do Novo Testamento, que resulta no crente tendo um conhecimento
consciente de que ele foi liberto da pena de seus pecados por sua consciência ter
sido purificada (Jo 5:24; Hb 9:14, 10:22). Parte integrante da salvação da alma
é: redenção (Rm 3:24), perdão dos pecados (Rm 4:7), justificação (Rm 5:1) e
reconciliação (Rm 5:10-11). Essas coisas são todas nossas por meio do
recebimento de Cristo como nosso Salvador e são consequentes da obra de Cristo consumada
na cruz. Essas bênçãos específicas, portanto, não poderiam ter sido possuídas
por aqueles que viveram antes da cruz de Cristo.
Afirmar que os santos do
Velho Testamento não tinham a salvação de suas almas, não significa que eles
não foram para o céu. Eles eram realmente nascidos de Deus e foram abençoados
em um relacionamento com o Senhor, de acordo com o modo como Ele Se revelou a
eles. No entanto, o único tipo de salvação que eles conheciam era a salvação
temporal, por meio de livramentos externos dos perigos e problemas (Êx 14:13; 2
Cr 20:17; Ne 9:27, etc.). Isto que Pedro estava falando era um novo tipo de
salvação de caráter espiritual. Como mencionado, tem a ver com o crente saber e
estar assegurado do fato de que seu bem-estar eterno está seguro. Isso resulta
no crente tendo paz estabelecida em sua alma. Os santos do Velho Testamento não
tinham esse conhecimento nem essa garantia. Eles viviam com um grau de
incerteza quanto ao pena de seus pecados e temiam que Deus os levasse a julgamento
em algum momento futuro (Sl 25:7, 51:9-11, etc.).
Pedro diz que essa salvação
da alma que os crentes agora possuem foi profetizada muito antes, pelos
profetas do Velho Testamento. Aprendemos em Gênesis 49:18 que havia uma “salvação” por vir que foi identificada
com a vinda e obra do Messias. Os santos naqueles dias não entendiam o que era
e como seria, mas simplesmente sabiam que a graça salvadora seria de alguma
forma manifestada. Muitas outras passagens do Velho Testamento falam o mesmo
(Sl 14:7, 67:2; Is 12:2-3, 25:9, 45:8, 49:6, 51:5-8, 52:7, 10, 56:1, etc.). Sob
inspiração divina, os profetas escreveram sobre essa “graça” que viria aos crentes nos dias atuais (v. 10), mas eles não
entenderam o que haviam escrito (v. 11). Eles “investigaram” (ARA) seus próprios
escritos “diligentemente” e “inquiriram” (pesquisaram) sobre o que
eram essas coisas e a quem elas se aplicavam. Foi-lhes “revelado” que essas coisas não eram para “si mesmos”, mas para santos de outro tempo e dispensação ainda por
vir (v. 12a).
O “Espírito de Cristo” estava “em”
profetas do Velho Testamento na época de sua escrita, e isso os tornou em
veículos de Suas operações. Ele deu-lhes sentimentos e experiências que eram,
na realidade, uma reprodução dos sentimentos de Cristo. Isto é, sentimentos que
seriam plena e perfeitamente encontrados em Cristo quando Ele Se tornou um
Homem e andou na Terra. (O “Espírito de
Cristo” está trabalhando de forma similar atualmente, produzindo os
sentimentos e compaixões de Cristo nos santos enquanto vivem e se movem nesta
cena que está sob a “servidão da corrupção”. Portanto,
“com
Ele padecemos” ao vermos
homens e animais sofrendo sob os efeitos do que o pecado causou na criação – Rm
8:9, 17).
Como mencionado na
introdução, em cada uma dessas profecias, o Espírito de Cristo estava “anteriormente testificando”
da bênção da salvação da alma que estaria conectada
com “os sofrimentos que a Cristo haviam de vir, e a glória que se lhes havia de seguir”. Esses são dois
grandes temas relativos ao Messias que percorrem todos os escritos proféticos
do Velho Testamento. Há aquilo que pertence aos sofrimentos do Messias e aquilo que pertence ao Seu reinado na
glória do Seu reino. A ordem em que essas coisas são encontradas na Escritura
indica que Cristo primeiro sofreria, antes de entrar em Sua glória. Resultante
da vinda do Espírito Santo e da consequente revelação da verdade que nos foi
dada (Jd 3), sabemos que há cerca de 2.000 anos entre essas duas coisas,
durante as quais Deus tem chamado para fora deste mundo aqueles que iriam
compor a Igreja.
Os judeus permaneciam nas
passagens que pertenciam as glórias do Messias e se deleitavam nelas. Eles liam
aquelas passagens em suas festas anuais com grande entusiasmo. Mas,
infelizmente, negligenciaram as passagens que falavam dos sofrimentos do
Messias – por exemplo, Salmo 22; Salmo 69; Isaías 50:4-6, 53:1-12; Miquéias
5:1; Zacarias 13:7, etc. Essas Escrituras revelam que Cristo seria rejeitado
por Seu próprio povo e seria “cortado”
pela morte (Is 53:8; Dn 9:26 – JND). O Senhor apontou este desequilíbrio na mente dos judeus
para os dois com quem ia para Emaús (Lc 24). Ele os repreendeu por não crerem “tudo o que os profetas disseram” a respeito do Messias. Eles, como os judeus em geral,
tinham crido apenas nas partes da Escritura que pertenciam ao glorioso Messias,
e isso os levou a conclusões equivocadas e desencorajadoras quando Ele foi
rejeitado e crucificado. Para contrapor a isso,
o Senhor explicou a partir das Escrituras que Ele deveria primeiro sofrer antes
de entrar na glória do Seu reino (Lc 24:25-27). Pedro explica no capítulo mais
tarde, que os sofrimentos e a morte do Senhor foram para nossa redenção e
bênção eterna (vs. 18-19).
Vivemos hoje no tempo entre
os sofrimentos de Cristo e Suas glórias vindouras, quando foi dado um relato
completo da revelação Cristã da verdade. É um tempo de sofrimento e de fé. De
sofrimento, porque estamos identificados com um Cristo rejeitado, e quando
confessamos o Seu nome, compartilhamos Seus sofrimentos (martírio). De fé,
porque ainda estamos em nossa jornada para casa, em que devemos andar “por
fé, e não por vista” (2 Co
5:7).