SERVOS
DOMÉSTICOS (vs. 18-25)
O primeiro desses
relacionamentos naturais é o servo doméstico. Pedro diz: “Vós,
servos domésticos, sujeitai-vos com todo o temor aos senhores, não
somente aos bons e gentis, mas também aos maus [mal humorado]. Porque é coisa agradável, que alguém, por causa da consciência para
com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque, que glória será essa,
se, pecando, sois esbofeteados e sofreis? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos
e o sofreis [suporta pacientemente], isso é agradável [aceitável] a Deus”.
(Tradução W. Kelly). A palavra grega para “servos” aqui não é a palavra usual empregada no Novo Testamento,
que é “escravos”. A palavra usada
aqui se refere àqueles que eram servos, mas não necessariamente escravos.
Tendo abordado a necessidade
de sujeição às autoridades governamentais nas terras em que vivemos (vs.
13-17), Pedro insiste em “sujeição”
similar em casa (vs. 18-20). O grande ponto aqui é que o servo deve estar
sujeito ao seu senhor, mas, ao mesmo tempo, ele deve manter uma boa consciência
diante de Deus. Isso é particularmente desafiador quando o senhor é “mau” e pede ao servo para fazer algo
moral e eticamente errado. Recusar-se a fazer algo mau muitas
vezes levará o servo a sofrer “injustamente”.
Pedro diz que não teríamos crédito algum ao sofrermos por termos feito algo
errado. Mas se sofremos por nos recusarmos a fazer o mal “por causa da consciência”, isso
glorifica a Deus e testemunha o fato de que temos algo (nossa fé em Cristo)
pelo qual vale a pena sofrer. Houve muitos senhores que se converteram
por meio de seus servos, por viverem com valores corretos em nome de Cristo.
Vivendo no mundo ocidental, onde
senhores e servos em uma casa não são coisas
costumeiras, podemos estar inclinados a pensar que esta passagem não tem
aplicação para nós hoje. No entanto, quando somos empregados remunerados em
alguma empresa, estamos, em princípio, na mesma posição que esses servos
Cristãos. Durante as horas de nosso trabalho, prestamos nossos serviços à
empresa que nos contratou e, ao fazê-lo, as ordens dadas aos servos aqui e em
outros lugares no Novo Testamento têm uma aplicação prática para nós (Ef 6:5-8;
Cl 3:22-25; 1 Tm 6:1). Da mesma forma, os empregadores que administram uma
empresa e têm empregados, em princípio, estão na posição de senhores, e eles
devem administrar suas empresas de uma maneira que honre ao Senhor (Ef 6:9; Cl
4:1; 1 Tm 6:2).
Vs. 21-25 – Para ajudar os
servos a enfrentar essas circunstâncias difíceis no local de trabalho da
maneira correta, Pedro apresenta duas coisas:
- O exemplo da vida de Cristo (vs. 21-23).
- O sacrifício da morte de Cristo (vs. 24-25).
Quanto ao primeiro, ele diz: “Porque
para isto sois chamados; pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o
exemplo [modelo], para que sigais as Suas pisadas. O Qual
não cometeu pecado, nem na Sua boca se achou engano. O Qual, quando O
injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-Se àqu’Ele
que julga justamente”. A difícil circunstância de provação de trabalhar sob um senhor
arrogante oferece ao servo uma oportunidade de ouro para mostrar as excelências
(virtudes) de Cristo. Mas isso não é fácil de fazer quando sabemos que estamos
sofrendo injustamente. Como um “modelo”
para toda a conduta correta sob tais circunstâncias, Pedro nos aponta para
Cristo, o Servo perfeito. Ninguém sofreu injustamente mais do que Ele, e
ninguém nunca aceitou o sofrimento com um espírito tão maravilhoso de mansidão
e graça! Servos que sofrem por injustiças no local de trabalho devem “seguir Suas pisadas” e o Seu “exemplo” de paciente submissão, quando
têm de sofrer desta forma. O cenário desta exortação é o dos servos sofrendo em
sua condição de vida, mas as palavras de encorajamento de Pedro aqui se aplicam
a qualquer um que sofra injustamente.
Cristo sofreu, mas não pelos
Seus próprios pecados, porque Ele não teve pecados. As escrituras dizem: “O
Qual não cometeu pecado” (v. 22), Ele “não conheceu pecado” (2 Co
5:21) e “n’Ele
não há pecado” (1 Jo 3:5). Ainda assim, Ele sofreu pacientemente sob as falsas
acusações que foram lançadas contra Ele. Quando foi falsamente acusado perante
o Sinédrio (o conselho judaico), “guardava
silêncio” (Mt 26:63), e então diante de Herodes, demonstrou o mesmo
controle próprio – Ele “nada lhe respondia”. (Lc 23:9). E,
exerceu o mesmo controle próprio novamente diante de Pilatos – Ele “nem uma palavra lhe respondeu” (Mt 27:12-14). Ele não fez nenhuma tentativa de defender a
Si mesmo, ou de revidar. Pedro diz: “quando O injuriavam” com palavras abusivas, Ele “não injuriava, e
quando padecia não ameaçava”. Não havia “engano”
em Sua boca; Ele nunca disse uma palavra em um tom de voz errado! Em vez de
justificar-Se, Ele “entregava-Se àqu’Ele que julga justamente”, e assim, cumpriu
Isaías 53:7 perfeitamente. A conduta do Senhor nos mostra como devemos nos
comportar quando somos difamados e perseguidos por fazermos o que é correto
diante de Deus. Aprendemos com isso que não devemos nos deixar envolver em brigas
de palavras quando somos insultados, nem fazer ameaças para ficarmos quites.
Quanto à segunda coisa, Pedro diz: “Levando
Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para
os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas Suas feridas fostes
sarados. Porque éreis como ovelhas desgarradas: mas agora tendes voltado ao
Pastor e Bispo das vossas almas”. (vs. 24-25). Podemos nos perguntar por que ele mencionaria a
obra de Cristo na cruz em que fez expiação, quando não nos é possível segui-Lo
nesse tipo de sofrimento – somente Ele poderia fazer expiação pelos pecados.
Mas, olhando mais de perto a passagem, veremos que Pedro não está nos pedindo
para imitar o Senhor na expiação, mas sim para estarmos cientes do que Ele
realizou na expiação. Seu sofrimento pelos pecados não é colocado diante de nós
aqui como um modelo, mas como uma motivação para deixarmos de pecar. O
raciocínio de Pedro é que, uma vez que Cristo sofreu tão profundamente para
tirar nossos pecados, não podemos acertadamente
continuar nessas coisas que tanto Lhe custaram. Continuar com esses pecados é
uma insensível falta de consideração ao que Ele passou para tirá-los.
Colocando isso em contexto,
ao respondermos de maneira carnal aos erros cometidos contra nós, estamos
fazendo algo que custou um sofrimento imensurável ao Senhor! Como Deus pode
aprovar isso? Toda essa ação carnal não é o modo de agir de Deus quando somos
perseguidos, “Porque a ira do homem não opera a
justiça de Deus” (Tg 1:20). A carne se sente justificada em pecar quando sabe que
foi injustiçada, mas se verdadeiramente fomos “sarados” por Suas “feridas”
(espiritualmente), não vamos querer responder às injustiças contra nós com uma
demonstração pecaminosa de ira, nos queixando etc. Pedro afirma que o propósito
da morte de Cristo é separar os crentes do curso dos pecados que eles uma vez seguiram
(que é o que significa “mortos
para os pecados”) para que possam “viver para a justiça”. Portanto, a
única coisa certa a se fazer quando testados nessas situações difíceis é buscar
a graça de Deus a fim de nos comportarmos de uma maneira que glorifique o
Senhor (Tg 4:6).
O versículo 24 tem a ver com
o que Cristo fez por nós no passado
na cruz, mas o versículo 25 tem a ver com o que Ele está fazendo por nós no presente, cuidando e nos mantendo no
caminho de fé. Seu olho está sempre sobre aqueles que Ele redimiu, cuidando
deles com seu “Pastor” e
“Bispo”. Como nosso Pastor, Ele nos
alimenta com alimento espiritual (v. 2). Como nosso Bispo, Ele nos guia e nos
protege dos ataques espirituais do inimigo (cap. 5:8). Se nos mantivermos perto d’Ele, seremos livrados das armadilhas do caminho
(Dt 33:12). Antes que esses santos judeus fossem salvos, não tendo o Senhor
para ajudá-los desta maneira prática, eles eram “desgarrados” nas trevas do judaísmo vazio, mas agora, tendo
recebido a Cristo, eles estavam no caminho de fé sob Seu cuidado e proteção.