FILHOS (cap. 1:14-21)
Pedro começa dirigindo-se a eles como “filhos” na família de Deus. Ele diz: “Como
filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes
havia em vossa ignorância; Mas, como é Santo aqu’Ele que vos chamou, sede vós
também santos em toda a vossa
maneira de viver; Porquanto escrito está: Sede santos, porque Eu Sou santo”
(vs. 14-16). Este era um relacionamento com Deus que eles não tinham antes de
serem salvos. Antes de crerem no evangelho, eles eram filhos de Israel, mas
agora, tendo recebido a Cristo, eles eram “filhos
de Deus” (Jo 1:12). O apóstolo João nos pede que consideremos esta grande
bênção e privilégio: “Vede quão grande amor
nos tem concedido o Pai: que fôssemos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3:1 – ACF).
Pedro então lhes enfatiza
que na família de Deus o aumento de privilégios traz aumento de responsabilidades.
No caso deles, se fosse para serem achados em um relacionamento com Deus como
Seus filhos, eles teriam de andar em santidade, pois Deus é santo. Por isso, “as concupiscências
que antes havia em vossa ignorância”, às quais antes eram “conformados”,
deveriam ser deixadas imediatamente. Como filhos em relação a Deus, nosso Pai,
devemos ser marcados pela obediência. O caráter dessa obediência foi
demonstrado na vida do próprio Senhor quando Ele andou aqui (Jo 8:29). Ela foi
motivada pelo amor (Jo 14:31, 15:10), em vez de ser uma obrigação legal. Assim,
devemos obedecer como Cristo obedeceu – “de
coração” (Rm 6:17).
Nos versículos 17 a 20,
Pedro apresenta dois motivos fortes para andarmos em santidade. Um tem a ver
com nossas consciências e o outro diz
respeito aos nossos corações. Em
todos os momentos, devemos ser:
- Conscientes do fato de que
poderíamos desagradar nosso Pai e incorrer em Seu juízo governamental (v. 17).
- Conscientes do fato de
termos sido redimidos por um grande preço – o precioso sangue de Cristo – e,
assim, nossas vidas não são mais nossas (vs. 18-20).
Quanto ao primeiro deles, Pedro diz: “E,
se invocais por Pai aqu’Ele que sem acepção de pessoas, julga segundo a obra de
cada um, andai em temor, durante o tempo da vossa peregrinação” (v. 17).
Isso mostra que, se seguirmos descuidadamente com falta de santidade, isso fará
com que nosso Pai aja, e em fidelidade Ele exercerá juízo em nossas vidas (na
forma de correção disciplinar) para nos corrigir. Podemos perguntar: “Deus
realmente julga Seus filhos?” Esse versículo mostra claramente que sim. Mas,
como indicamos na Introdução, este é o juízo governamental, que pertence apenas à nossa vida na Terra. Não tem
nada a ver com a nossa posição diante de Deus em Cristo, que está eternamente
segura. O julgamento governamental na família de Deus tem a ver com as relações
de um Pai amoroso corrigindo Seus filhos. Ele age nos bastidores de nossas
vidas de uma maneira negativa, frustrando nossos propósitos e planos a fim de
nos deter em nossa desobediência. Ele permitirá que dificuldades nos toquem na
forma de problemas, tristezas, doenças, etc., tudo com o objetivo de produzir
arrependimento. Quando há genuíno arrependimento nosso, Deus frequentemente
exercitará o perdão governamental e retirará a disciplina que Sua mão colocou
sobre nós (Mt 18:26-27; Lc 7:48; Jo 5:14; Tg 5:15; Sl 103:10-11, 130:3-4).
O “temor” que Pedro diz que devemos ter não é o medo de perder nossa
salvação e nosso relacionamento com Deus como nosso Pai. Se falharmos na
santidade, nosso relacionamento com Deus não muda, mas isso pode trazer Sua mão
sobre nós para correção. O temor de que Pedro está falando aqui é um temor
reverente – um respeito saudável pela fidelidade de Deus em corrigir Seus
filhos, se necessário (Hb 12:5-11). Pedro diz que o Pai julga “sem acepção de pessoas”. Isso
significa que Deus não tem favoritos em Sua família. Nenhum de seus filhos pode
viver de maneira descuidada e não sentir, de alguma forma, Sua mão o corrigindo
(Hb 12:6-7).
O segundo motivo para andarmos em santidade é o grande custo de nossa
redenção. Pedro diz: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou
ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição
recebestes dos vossos pais, Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um
cordeiro imaculado e incontaminado” (vs. 18-19). Fomos redimidos a um alto preço e, como resultado, o
Senhor tem uma reivindicação sobre nossas vidas. Devido ao que realizou no
Calvário, agora pertencemos a Ele; nossas vidas são d’Ele para usar da maneira
que Ele escolher. O apóstolo Paulo disse: “Não sois de vós mesmos, porque
fostes comprados por bom preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo” (1 Co
6:19-20). Quando pensamos no preço que Ele pagou para nos redimir, deveríamos
entregar nossas vidas a Ele com prazer.
Eu amo ter, Senhor Jesus
Tuas reivindicações divinas sobre mim;
Comprado com o Teu sangue mais precioso,
De Quem posso ser, senão Teu?
L.F. #16 App
Em vista do Calvário, a
lógica racional é: “Como posso continuar vivendo uma vida sem santidade quando
Cristo pagou um preço tão alto para me libertar de tudo isso? Deste dia em
diante, reconhecerei a autoridade de Seu Senhorio em minha vida e, com Sua ajuda,
farei as coisas que O agradam e glorificam”.
Para salientar em nossos
corações o valor da grande obra de Cristo na cruz, Pedro contrasta
o dinheiro da redenção que Israel pagou no passado, com o preço que Cristo
pagou para nos redimir. Os filhos de Israel que tinham mais de vinte anos de
idade deveriam dar a metade de um siclo de “prata”
como um “resgate” por suas almas (Êx
30:11-16, 38:25-26). Eles também deram “ouro”
para fazer “propiciação” (Nm
31:48-54). Em contraste com isso, o sacrifício de
Cristo como o “Cordeiro” de Deus era
de valor infinito. Ele deu a SI MESMO
como um resgate pelas nossas almas! (Gl 1:4, 2:20; Ef 5:2, 25; 1 Tm 2:6: Tt
2:14). Portanto, Sua Pessoa (cap. 2:7) e Sua obra, representada por Seu sangue
(cap. 1:19), são ambos “preciosos”
para os santos. O efeito prático que isso tem sobre nós é que queremos fazer
coisas que O agradem (Sl 116:12). Neste contexto, é viver uma vida santa. Como
o supremo e perfeito sacrifício pelo pecado, Cristo foi “imaculado” interiormente
(1 Jo 3:4) e “incontaminado”exteriormente (1 Pe 2:22). Veja Números
19:2.
Para que ninguém pense que a
entrada do pecado atrapalhou o plano de Deus de abençoar o homem, Pedro mostra
que a redenção não foi uma ideia posterior de Deus. Ele diz: “O
qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do
mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós” (v. 20).
Assim, Deus antecipou totalmente a queda do homem e suas consequências, e
pré-ordenou que Cristo fosse enviado ao mundo como o grande Redentor nos
últimos dias de Israel. Os “últimos
tempos” de que Pedro fala é em relação ao tratamento de Deus com Israel;
não deve ser confundido com os “últimos
dias” do testemunho Cristão, nos quais estamos hoje (2 Tm 3:1). O ciclo das
setenta semanas de Daniel, que terminará com a restauração e bênção de Israel
(Dn 9:24-27) foi interrompido entre a 69ª e a 70ª semana, quando os judeus
rejeitaram seu “Messias”. O Novo
Testamento ensina que durante essa suspensão Deus direcionou Sua energia para
chamar a Igreja, que é uma companhia especial de pessoas abençoadas distintas
de Israel, que tem um destino celestial com Cristo como Seu corpo e noiva,
quando Ele reinará em Seu reino milenar. Assim, o período da Igreja de quase
2.000 anos veio como um parêntese entre a 69ª e a 70ª semana (Rm 11:11-32).
Pulando este período presente, vemos que a profecia de Daniel indica que
Cristo, o Messias, seria “cortado”
pela morte sete anos (uma semana – Gn 29:27; Nm
14:34; Ezl 4:6) antes que as promessas de Deus
relativas à restauração e bênção de Israel fossem cumpridas (Dn 9:24 – JND). Assim, Ele morreu nos últimos tempos de Israel.
A culminação da obra
redentora de Cristo não é a cruz e a sepultura, mas o que Deus assegurou
ressuscitando-O dentre mortos e dando-Lhe glória. Este é a garantia de Deus de
que Ele completará o propósito que tinha para nossa bênção em nossa
glorificação. Portanto, Pedro diz: “E por Ele credes em Deus, que O
ressuscitou dos mortos e Lhe deu glória, para que a vossa fé e esperança estivessem
em Deus” (v.
21).