Dando uma Resposta pela Razão da Nossa Esperança


        V. 15 – Pedro prossegue, mostrando que, se nos comportarmos adequadamente, especialmente sob a provação da perseguição, aqueles que se opõem às coisas que defendemos, podem até mesmo inquirir sobre nossa fé. Isso mostra que quando sofremos por justiça e somos felizes, isso dá um testemunho poderoso para aqueles que estão ao nosso redor, e eles podem querer o que temos. Já que esta é uma possibilidade real, ele diz: Antes santificai a Cristo, como Senhor, em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. Esta é uma citação parcial de Isaías 8:12-13. Santificar o Senhor Cristo em nossos corações é dar ao Senhor Seu lugar de direito em nossas vidas, colocando os Seus interesses em primeiro lugar. Isso incluiria estar em bom estado de alma por meio de nosso julgamento próprio (1 Co 11:31) e vivendo em comunhão com o Senhor (Jo 15:4). Então, se quisermos ser efetivos em dar uma resposta correta sobre em que cremos, também precisaremos ter um conhecimento prático da verdade. Não podemos esperar ensinar a verdade àqueles que nos perguntam, se nós mesmos não a conhecemos. Aqueles que viveram nos primeiros dias do Cristianismo, antes de as Escrituras do Novo Testamento serem escritas, adquiriram a verdade por meio do ministério oral dos apóstolos e outros servos do Senhor (At 2:42, 11:26, 14:22, 18:24-28, 20:20). Mas desde que o Novo Testamento foi completado, temos a Bíblia divinamente inspirada para nos referirmos – mas até mesmo isto requer uma familiaridade com ela, que só vem por meio do estudo diligente (1 Tm 4:6; 2 Tm 2:15 – “Estuda para mostrar a ti mesmo aprovado a Deus” KJV).
Pedro diz que nossas respostas devem ser dadas “com mansidão e temor”. A mansidão e humildade andam juntas (Mt 11:29; Ef 4:2; Cl 3:12). A mansidão tem a ver com a maneira pela qual nos aproximamos dos outros, não ofendendo (1 Co 4:21; 2 Co 10:1; Gl 6:1; 2 Tm 2:24; Tt 3:2). H. Smith disse: “Agindo em um espírito de mansidão, não ofenderemos” (The Epistles of Peter, pág. 25). Humildade, por outro lado, é não se ofender quando encontramos alguém que não é manso em espírito. Moisés é um exemplo de humildade; ele foi criticado por se casar com uma mulher negra (cusita ou etíope), mas ele não se ofendeu (Nm 12:3 – Nota de rodapé – Tradução J. N. Darby). A palavra “responder” no grego é “apologia”, que é de onde obtivemos nossa palavra em inglês “apologética”. Isso se refere a uma defesa doutrinária da fé Cristã. Assim, devemos agir em mansidão, mas também no “temor” de Deus ao enfrentar os questionadores. Precisamos manter um espírito correto ao darmos uma resposta da “razão da esperança” em nós. Isso será difícil quando estivermos sendo perseguidos, mas o Senhor nos dará a graça para dizer a coisa certa se olharmos para Ele (Mt 10:18-20).
V. 16 – Pedro acrescenta: Tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo”. Assim, não é para termos apenas um conhecimento da verdade e um espírito correto ao respondermos àqueles que perguntam, mas também devemos ter uma “boa consciência”. Uma boa consciência é mantida por nos julgarmos a nós mesmos, se e quando falharmos. O próprio Pedro é um exemplo aqui. Ele “negou” o Senhor (Mt 26:72), mas quando ele julgou seu fracasso e foi restaurado ao Senhor, ele poderia, com boa consciência, pregar para seus compatriotas: Mas vós negastes o Santo e o Justo!” (At 3:14) O perigo é perdermos uma boa consciência por não nos comportarmos corretamente quando somos falsamente acusados. Quando esse é o caso, nosso ministério perderá seu poder.
Vs. 17-18 – Pedro conclui: Porque melhor é que padeçais fazendo bem (se a vontade de Deus assim o quer), do que fazendo mal. Porque também Cristo padeceu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus; mortificado, na verdade, na carne, mas vivificado pelo Espírito”. Os sofrimentos de Cristo na expiação são trazidos aqui como motivação para o crente não pecar. Assim, é totalmente inconsistente para um crente ser encontrado sofrendo por ter feito algo errado, porque Cristo já sofreu por tais pecados no Calvário. Uma vez que tirar esses pecados Lhe causou agonia insondável, como podemos voltar, na menor medida que seja, àquilo que causou a Ele tanto sofrimento? Visto que Ele nos salvou de tudo isso, não é correto que sejamos encontrados praticando aqueles pecados pelos quais Cristo morreu; isso é não ser fiel à nossa confissão de sermos Cristãos. J. N. Darby disse: “Pode ser que Deus ache bom que soframos. Se assim for, é melhor que soframos por fazer o bem do que por fazer o mal. O apóstolo dá um motivo tocante para isso: Cristo sofreu pelos pecados de uma vez por todas; que isso seja suficiente; vamos sofrer apenas pela justiça. Sofrer pelo pecado foi Sua tarefa; Ele a consumou e para sempre, sendo levado à morte quanto à Sua vida na carne, mas vivificado de acordo com o poder do Espírito divino” (Synopsis of the Books of the Bible, Loizeaux edition, pág. 444-445).
três coisas declaradas no versículo 18 em conexão com a obra de Cristo na cruz: 
  • Padeceu uma vez pelos pecados” – isso é propiciação.
  • O Justo pelos injustos” – isto é substituição.
  • Para levar-nos a Deus” – isto é reconciliação.

 A ordem em que Pedro fala dessas coisas é significativa. Propiciação e substituição (as duas partes da expiação) precedem a reconciliação. Isso indica que Deus teve de cuidar de assuntos que pertenciam à Sua santidade antes que Ele pudesse Se preocupar com a necessidade do homem. As reivindicações da justiça divina em relação ao pecado tinham de ser resolvidas primeiro. Isso foi feito na propiciação (Rm 3:25; Hb 2:17; 1 Jo 2:2, 4:10). A propiciação é o lado de Deus da obra de Cristo na cruz, que satisfez plenamente a Deus em relação a toda a manifestação do pecado; isso reivindicou Sua natureza santa. A substituição é o lado do crente da obra de Cristo na cruz. Tem a ver com o que Cristo fez pelos crentes suportando o juízo dos pecados deles (cap. 2:24). Como resultado, a questão do pecado foi resolvida na cruz, e Deus é capaz de alcançar o homem com uma mensagem de graça redentora, e reconciliar os crentes a Ele mesmo (Rm 5:10-11; Ef 2:13; Cl 1:21).